| data: 29/07/2010
Não é a premiação que motiva, mas o processo, a proposta, a cumplicidade e o diálogo
Professora de Florianópolis (SC) acompanha o Escrevendo o Futuro desde sua primeira edição em 2002, antes de o programa virar uma Olimpíada. Depois de oito anos e cinco participações, ela acumulou uma experiência diferenciada. Até 2009, foi a única professora de Língua Portuguesa de sua escola, trabalhando com turmas de 5ª à 8ª séries. Isso fez com que, a cada participação, lidasse com gêneros diferentes, ao mesmo tempo, em turmas separadas. Foi por essa experiência que a professora enviou para a Comunidade Virtual, um relato sobre o trabalho que desenvolveu nesses anos todos. Josefina da Silva Pisani Trabalho na Escola Básica Municipal Padre João Alfredo Rohr, em Florianópolis, desde 2001 e estou no magistério desde 1986 há 24 anos, portanto. Acompanho o Escrevendo o Futuro desde 2002 e fui a única professora de Língua Portuguesa em minha escola até 2009. Este ano, com o aumento do número de turmas, temos mais uma professora. A escola em que trabalho - 40 horas semanais - fica em um bairro próximo à região central de Florianópolis e recebe estudantes oriundos de diversos Estados do país, sobretudo do Nordeste. Há uma alta rotatividade de alunos, visto que os pais, na grande maioria, são trabalhadores da construção civil ou prestadores de serviços gerais, de modo que, parodiando Milton Nascimento, “o trabalhador vai aonde o serviço está” e os filhos vão junto. Meu interesse pela proposta da Olimpíada nasceu do desejo de dar visibilidade à autoria dos alunos. Mas não é um interesse novo, é bem antigo. Desde sempre convido meus alunos a participarem de concursos de frases e redações, pelo fato de haver nessas propostas a possibilidade de se fazerem ouvir, publicando textos que não ficam confinados aos murais e muros da escola. Participamos de alguns concursos de cartas dos Correios e de concursos literários promovidos pela Câmara Catarinense do Livro, com lançamento de livros a cada edição, contendo as melhores produções dos alunos. Também fizemos o resgate de lendas e causos, projeto promovido pela rede municipal e pela editora FTD, com livro editado em 2002. Enfim, nos inscrevemos em todos os eventos divulgados na escola. A Olimpíada foi, inicialmente, mais um concurso de que tivemos conhecimento. Mas atualmente é uma proposta consolidada e assegurada no Projeto Político Pedagógico da escola, subsidiando o planejamento mesmo nos anos ímpares. Sabemos que o desenvolvimento dos alunos melhora quando há metas a serem alcançadas e quando os objetivos são previamente definidos. O ensino na perspectiva de gênero, com uma finalidade, ajuda professores e alunos a terem maior clareza quanto aos caminhos e às etapas a percorrer. Neste sentido, os alunos leem mais, dedicam-se mais, descobrem que escrevem para alguém ler; e os professores exigem mais porque há uma motivação. Para o professor é muito gratificante ter o texto de um aluno selecionado na Olimpíada. As comissões julgadoras são aguardadas com grande expectativa. Paralelamente a esse processo, os textos são preparados para a publicação do livro com a produção de todos os alunos que desejam participar. Assim foi em 2008, quando todos os alunos de 5ª a 8ª série se envolveram na Olimpíada, inclusive aqueles que não concorreriam (visto que apenas 5ª e 8ª estavam inscritas nas categorias poesia e memórias). Usamos bastante a biblioteca e a sala de informática. Ao final dos trabalhos, um livro intitulado Poemas e memórias: revisitando o lugar onde vivo, foi elaborado pelos alunos e professora, contando com o envolvimento de toda a escola: direção, pais e equipe pedagógica. Tudo isso com direito a coquetel de lançamento e autógrafo num sábado chuvoso, mas muito animado. A rigor, os alunos permaneceram comigo durante quatro anos do ensino fundamental e participaram, quando muito, de duas edições da Olimpíada. Mas durante o tempo de contato e trabalho, pudemos perceber a olhos vistos o quanto se desenvolveram e caminharam em direção à autonomia de escrita e de leitura. Quando nos visitam, já freqüentando o ensino médio, relatam os avanços e elogios que recebem dos novos professores; comentam o quanto estão lendo e escrevendo, demonstrando satisfação e consciência do que são capazes de produzir. O desempenho melhora, assim como a auto-estima, e cada vez mais me convenço de que o contato com a literatura humaniza os alunos. E a Olimpíada torna tudo isso um pouco mais fácil, na medida em que aprofunda e solidifica o projeto de leitura que desenvolvo há quatro anos na escola. São vários os desafios que encontro ao trabalhar com gêneros distintos em sete turmas. Dentre eles destaco o planejamento detalhado das oficinas e a preparação de material específico; a avaliação necessária para intervir em cada grupo, já que o desempenho de aprendizagem difere entre as turmas; a freqüência irregular dos alunos que compromete a continuidade da sequência didática e requer retomada de conteúdos e oficinas. Todas essas questões não são suficientes para me impedir o desenvolvimento de um trabalho de qualidade. Quando anuncio o final da aula e os alunos dizem “Já acabou?”, “Fica um pouco mais!”, “Que depressa passou a aula!”, a sensação é muito boa. Então comento que se a aula está boa, o mérito também é deles. Não tenho qualquer frustração pelo fato de meus alunos não terem avançado para as etapas finais da Olimpíada. Acredito que eles são vitoriosos quando se propõem a participar e alcançam as metas de aprendizagem estabelecidas. Por isso, reafirmo que não é a premiação que me motiva, mas a proposta, a cumplicidade e o diálogo estabelecidos durante o processo. Trabalhar esta consciência demanda tempo, mas é um exercício pleno e rico, que bendigo todos os dias. Apaixonada pela profissão, saio todos os dias encantada com o crescimento do grupo e com as possibilidades que se abrem a partir da experiência em sala de aula.
Fonte: Site da OLP
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